Nunca foi contra o Hamas - por Magno Paganelli

 

No primeiro artigo desta série, alertamos para o potencial risco de vermos ao redor do mundo uma crescente antipatia contra a população israelense que tem apoiado os ataques assimétricos das IDF (as Forças de Defesa de Israel), contra a população encurralada na Faixa de Gaza. Aliás, a comunidade judaica, que vinha numa campanha crescente contra o antissemitismo, anunciou o aumento de 1000% nesse tipo de ocorrência. O Instituto Brasil-Israel (IBI) publicou o Guia Contra o Antissemitismo na esteira desse cenário.

Neste segundo artigo vamos analisar uma justificativa falaciosa para os ataques de Israel contra a população de Gaza, que é a necessidade de o Hamas ser eliminado. Será mesmo que o Hamas tem sido a causa dos males em Israel?

O sionismo político não tinha qualquer interesse pelo judaísmo como religião ou por questões judaicas em si, embora se valesse (como sionistas fazem) da consciência geral cristã na Europa de que a Palestina fosse o antigo lar dos judeus, então espalhados por países do Oriente e Oriente Médio, África, Américas e Europa, onde a ideologia nasceu. A partir daí teria iniciado o esforço por reunir o seu povo numa terra onde pudessem encontrar liberdade e viver longe das perseguições.

Como antecipei no artigo anterior, Wladimir Jabotinsky idealizou a Muralha de Ferro, um plano para proteger os judeus alocados na Palestina e preservar sua população por meio do reforço bélico contra investidas árabes. O sionismo revisionista praticamente fez de Ze’ev Jabotinski o mentor espiritual do direito israelense. Jabotinski foi oficial da Zion Mule (Muleiros de Sião, um grupo de “resistência” armada contra árabes e ingleses), no Egito. Foi chamado revisionista, porque rejeitava a divisão da Palestina proposta pelos britânicos e as três limitações do relatório de Winston Churchill em 1922: estabelecia critérios econômicos para a imigração judaica, propunha instituições eleitas com base na representação proporcional e excluía a Transjordânia da área de ocupação judaica.

Desde então, os sionistas alinham-se às ideias proposta pelo “plano” de Jabotinski e trabalham sem pressa pela remoção de toda a população palestina de suas terras; apenas lembrando: cerca de 750 mil palestinos foram desalojados durante a Guerra da Independência (1948-1949; há uma guerra de narrativas sobre o modo como isso se deu), e passaram a agrupar-se em campos de refugiados na região e nos países árabes vizinhos. Hoje, mais de dois milhões de refugiados palestinos vivem na Jordânia (pelo menos 25% da população local), segundo a agência de refugiados UNRWA (ONU). Gaza é outro campo de concentração, constituindo-se no território mais densamente povoado do planeta.

Outra alternativa do Governo de Israel para os palestinos que vivem sob seu regime é a aculturação à sociedade israelense, mas sem que qualquer articulação para a formação de um Estado Palestino autodeterminado possa ocorrer. Os refugiados da Guerra de Independência formaram milhares de famílias no exílio e aguardam o “direito de retorno” às suas terras, mas Israel considera que haveria um acentuado desequilíbrio populacional desfavorável, pelo que certamente esses refugiados jamais tornarão a ver suas terras.

Dov Weisglass, conselheiro do então primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, Governo que emboscou e matou cristãos e palestinos em grande número nos campos de refugiados, afirmou o intuito de congelar o processo de paz ao retirar colonos de Gaza, pois isso previne o estabelecimento de um Estado palestino, a discussão sobre os refugiados, as fronteiras e Jerusalém etc. Weisglass disse: “Efetivamente, todo este pacote chamado Estado palestino, com tudo o que ele implica, foi removido indefinidamente de nossa agenda”.

Por razões como essas, ficam questões como, se quando Israel afirma ter o direito de se defender, essa “defesa” implicaria em lançar mísseis em uma quantidade equivalente a quase duas bombas de Hiroshima sobre Gaza? Ordenar a evacuação de mais de meio milhão de moradores do norte de Gaza e atacar esses comboios, matando civis inocentes, é “defesa”? Anunciar a evacuação de hospitais, incluindo um hospital infantil, e atirar contra pacientes encurralados é “defesa”? É a isso que chamam de “exército mais ético do mundo”? Derrubar instituições públicas, monumentos, residências, ocupar o parlamento palestino em Gaza é “defesa”?

Não, nunca foi contra o Hamas. Uma parte dos militantes do Hamas age como terrorista, tanto quanto são terroristas as ações que temos visto Israel realizar. Vale lembrar que o Hamas foi criado em dezembro de 1986 (não em 1987, como informa a Wikipedia), mas o primeiro ataque considerado terrorista aconteceu depois que um judeu extremista, Baruch Goldstein, metralhou e matou 29 muçulmanos que rezavam em paz numa mesquita. Então, em resposta a essa violência sofrida, somente oito anos depois de sua criação foi que o Hamas realizou o primeiro ataque. Se tivesse sido criado exclusivamente para fazer terrorismo, por que teriam demorado tanto tempo para agir?

Para consolidar o plano Muralha de Ferro, aproveitando que os olhos do mundo se voltam para Gaza, a população palestina que vive na Cisjordânia vem sofrendo ataques das IDF, as Forças de “Defesa”. O território que deveria comportar somente a população palestina, há muito é alvo da ocupação israelense, cujo Governo destrói bairros, residências e demais edificações, desaloja a famílias inteiras, constrói bases militares e convida judeus interessados em mudar-se para “Israel”. O Governo de Israel oferece impostos baixos e ajuda na construção de casas para que o território seja ocupado por uma população israelense e, com isso, diminui o espaço para a população palestina, com desalojamento, deslocamento e a provável desistência de viver sob o regime etnocrático judaico.

Embora citemos o roubo de terras, não temos espaço para falar do roubo de pedras e da água de fontes palestinas, água tão escassa na região. Mas entendemos que esses indícios são suficientemente claros para se compreender que se não fosse o Hamas, seria qualquer outro grupo (como foi no passado) a razão para o massacre de milhares de crianças, mulheres, idosos, jovens, enfim, o extermínio lento, gradativo e cruel de uma população.

No último artigo desta série, falaremos do componente econômico e geoestratégico: as reservas energéticas de gás em Gaza que foram descobertas lá pelos anos 2.000 e que são uma razão a mais para o desalojamento de 2,2 milhões de palestinos.

 

 

Magno Paganelli é pós-Doutor e Doutor pela USP, Mestre em Ciências da Religião (Mackenzie), professor e escritor. Pesquisa o conflito Israel-Palestina e o Hamas há onze anos. Instagram e Youtube @magnopaganelli

 

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