O gás de Gaza, outro motivo para a Guerra e o deslocamento palestino - por Magno Paganelli
Nos
dois primeiros artigos desta série traçamos analogias históricas a fim de
indicar a possibilidade de uma nova perseguição aos judeus em redor do mundo,
dado que a situação em Gaza tem sido acompanhada globalmente pelas novas mídias
digitais, especialmente entre a população mais jovem. Falamos, ainda, sobre a
falácia da propaganda israelense de que os ataques à Gaza têm por motivo único
o combate ao terrorismo impetrado pelo Hamas, o que é um argumento fraco
em vista das atrocidades sem limite contra uma população desarmada e
encurralada. No entanto, nos parece claro que o “combate ao terror” é apenas
uma justificativa que cai como uma luva ao programa de erradicação de um futuro
Estado Palestino junto a Israel, o estado que se orienta pela ideologia racista
do sionismo.
Neste
último artigo, exploraremos outro componente que motiva Israel a desalojar a
população de 2,2 milhões de palestinos encarcerados na maior prisão a céu
aberto do planeta: as riquezas energéticas no Mar de Gaza.
No
final da década de 1990, foi descoberto um campo de gás e petróleo, uma bacia
de riquezas energéticas situada a 36 quilômetros da costa de Gaza. É a chamada bacia
do Levante, que segue pela costa de Israel e da Palestina e vai até à costa de
Chipre. A capacidade estimada desse imenso campo é de 1,7 bilhão de barris de
petróleo e cerca de 122 trilhões de pés cúbicos de gás. De olho nesse
patrimônio estão a Síria, o Líbano, a Palestina, Israel, o Egito, Chipre e
Turquia, todos com alguma possibilidade de reivindicação territorial sobre essa
jazida.
Em 19 de junho de 2023, o primeiro-ministro israelense, Benjamin
Netanyahu, declarou que seu governo irá implementar os planos para desenvolvimento
do campo de gás natural na costa da Faixa de Gaza, o Marine, em parceria com o
Egito e a Autoridade Palestiniana. A ocupação, provavelmente, acelerará esse
plano, enfraquecendo ou eliminando de vez o risco de o Hamas intervir nas
negociações e na viabilização do projeto.
Mediante
as atuais demandas de consumo de energia na região (estima-se que nos próximos
25 anos o consumo de energia nos países no entorno do Mediterrâneo deva
aumentar 50%), a ambição dessas nações aumenta proporcionalmente. Mas o
interesse não vem somente dessas nações, mas também de outras, que não fazem costa
com o Mediterrâneo: Irã, Rússia, Qatar e Inglaterra (que já perfurou dois poços
na região, o Gaza Marine 1 e o Gaza Marine 2), além do próprio Israel e a
Palestina; afinal, é na costa de Gaza que a bacia está localizada.
No
início da Guerra entre Hamas e Israel, em outubro de 2023, especulou-se que
Rússia, Irã e Qatar tivessem patrocinado o Hamas, a fim de enfraquecer Israel
como potencial explorador e exportador de gás para a Europa, destino especialmente
interessante no contexto global. Nesse caso, a Rússia, principal fornecedor de
gás para o bloco europeu, seria deixada de lado caso uma nova situação fosse favorável
a Israel na exploração da bacia do Levante. Isso afetaria a economia russa e
mudaria os rumos da guerra contra a Ucrânia.
O Irã,
provável líder mundial nas exportações de gás, é conhecido patrocinador do
Hamas quando o assunto é Israel, por causa da velha máxima “o inimigo do meu
inimigo é meu amigo”. O Irã é xiita e o Hamas, sunita, duas escolas islâmicas
divergentes dentro do Islã, que têm em comum o ódio a Israel. Mas, como vemos,
a questão não se resume à religião.
Do lado
de Israel, caso consiga remover a população de Gaza definitivamente,
dificilmente teria que responder à alguma reivindicação dos palestinos de Gaza
e, principalmente, às reivindicações de divisão de recursos ou pagamento de royalties,
feitas pelo Hamas, caso a exploração fosse campeada por Israel.
O
Qatar, do mesmo modo que o Irã, é um dos três gigantes exportadores de gás que
não quer ver Israel entrar no páreo. E, além disso, o Qatar é antigo patrocinador
do Hamas, usando-o como proxy na região, além de servir de residência
para pelo menos um chefe bilionário do Movimento Islâmico de Resistência
(acrônimo árabe para Hamas), que é Ismail Haniyeh, cujo patrimônio é estimado entre
US$ 3 e 4 bilhões.
A
posição geoestratégica daquele pedaço de terra encravado no Oriente Médio é a
menina dos olhos de países mais distantes, como Inglaterra e Estados Unidos, os
mais fortes aliados de Israel na região. Ambos veem um acordo entre Israel e a
Autoridade Palestina como favorável para as relações entre os dois povos médio-orientais
e para a região como um todo. Para tornar ainda mais complexa a questão, a
maior base militar norte-americana fora dos Estados Unidos é a Al-Udeid,
no Qatar, aliado militar dos americanos no Golfo e o primeiro país árabe a travar
relações comerciais com Israel, ainda em 1996.
Com tantos
interesses econômicos, militares, comerciais e estratégicos em jogo e com
tantos gigantes interessados em colocar suas bases, pés e mãos naquele pedaço
de terra e em suas riquezas naturais, o que são 2 milhões de vidas diante de
tudo o que esses países podem auferir de ganhos? Assuntos que envolvem proteção
e interesses nacionais, populações (mesmo os próprios cidadãos) são apenas
“efeitos colaterais” em caso de mortes, não importando, evidentemente, se são
crianças, mulheres, idosos ou qualquer outro civil – ou mesmo reféns
israelenses. Se não morrerem nos ataques absurdamente exagerados (cujos motivos
nos são bastante claros), deverão evacuar a região o quanto antes, porque o que
está em jogo passa muito distante de qualquer argumento em favor de direitos
humanos ou da propaganda pretensamente humanitária feita pelas forças de
“defesa” de Israel.
Benjamin
Netanyahu, que já fez longa carreira na política de seu país, entrará para a
história mundial como o líder que concluiu um dos mais malignos planos de
remoção de uma população nativa. Nem Moisés, numa era primitiva e selvagem, se
comparada à nossa, em que dispomos de mecanismos legais e jurídicos, deu cabo
da população local por meio do extermínio cananeu. No futuro, certamente os
descendentes dos apoiadores desse vexame humano verão campanhas tais como a que
a comunidade judaica realiza hoje ao redor do mundo: “Never again”.
Magno
Paganelli é pós-Doutor e Doutor pela USP, Mestre em Ciências da
Religião
(Mackenzie), professor e escritor. Pesquisa o
conflito Israel-Palestina e o Hamas há onze anos.
Instagram e
Youtube @magnopaganelli
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