Perseguição aos judeus: a história irá se repetir
CONFLITOS entre judeus, israelenses, árabes e palestinos na Idade Moderna acontecem desde
a virada do século XIX para o XX. Após a declaração de independência feita por
Israel, em maio de 1948, palestinos, ora com o apoio de nações árabes vizinhas,
ora por iniciativa de grupos como a OLP e o Fatah no passado, ou o Hamas e a
Jihad Islâmica no presente, atacam Israel usando as armas que dispõem, e vão de
pedras (no caso das Intifadas) e homens-bomba a mísseis de fabricação caseira.
Crianças palestinas que atiram pedras em soldados israelenses são presas e
consideradas terroristas – isso mesmo: terroristas! Ficam confinadas por meses
e até por anos em prisões sem um julgamento devido.
Na
mesma virada do século XIX havia dez vezes mais palestinos na região da Terra
Santa do que judeus (dados oficiais do Gov. Israel, segundo Edward Said). Uma comunidade rabínica vivia em
paz entre a população muçulmana pelo menos desde o século XVI em Gaza.
Cristãos, judeus e muçulmanos desenvolveram modos de vida local e vizinhança pacífica
por séculos. Famílias viviam da pecuária, com pequenos rebanhos, do cultivo de
oliveiras e outras culturas agrícolas. Essa era a vocação do povo palestino até
que o movimento sionista, de vertente secular com viés socialista, orquestrou
com o Mandato Britânico, o então governo da região, o deslocamento da
comunidade judaica da Europa para aquelas terras.
Os
judeus precisavam sair da Europa, onde eram perseguidos há séculos: Espanha (1492), Viena e Linz (1421), Colônia
(1424), Augsburg (1439), Baviera (1442), Morávia (1454), Perugia (1485),
Vicenza (1486), Parma (1488), Milão e Lucca (1489), Toscana (1494). O golpe
final, evidentemente, foi o Holocausto no séc. XX, durante a Segunda Grande
Guerra, quando cerca de 6 milhões de judeus foram mortos em campos de
concentração, campos de concentração que hoje eles reproduzem com a população
palestina, deixando-nos boquiabertos sobre a frieza de repetir com outro povo a
experiência que tanto alardeiam com o slogan “Nunca Mais” [Never Again].
Com eles, mas com os outros...
O mundo
se solidarizou com a causa judaica. A Igreja, que parte dela apoiou o regime de
Hitler e outra parte nada fez para impedir o genocídio de milhões (judeus,
homossexuais, ciganos e Testemunhas de Jeová), pôs as mãos na consciência e
tenta limpar a imagem na opinião pública. Para isso, tem endossado muito do que
o moderno Estado de Israel faz, mesmo que para isso milhões de palestinos precisem
ser deslocados das terras onde moram e cultivam há séculos. Isso justifica o assassinato
de milhares de civis inocentes (crianças, mulheres, idosos, doentes) sob
pretextos os mais variados: direito a defesa, efeito colateral, combate ao
terror, legalidade, entre outros.
Há
um século, o mesmo plano de governo é seguido em Israel, quer ele seja de
direita, quer de esquerda. A chamada Muralha de Ferro é uma
ideologia elaborada por Wladimir Jabotinsky, famoso guerrilheiro judeu-russo. Jabotinsky formou o Corpo de Muleiros de Sião, em
1920, grupo que apoiava tropas aliadas realizando “operações” tais como o Hamas
palestino realiza hoje: de terrorismo. A Muralha de Ferro propunha que Israel
se armasse fortemente a fim de tratar com os árabes a partir de uma posição de
incontestável superioridade. David Ben Guryon, que proclamou a
independência de Israel em 14 de maio de 1948, fez declarações de que “palestinos
devem ir embora” daquelas terras e que “precisamos de uma oportunidade para
fazer isto, como uma guerra”. E é o que temos visto desde então.
Embora
aleguem que Israel não pode iniciar uma guerra, observa-se que movimentações
militares e ações em fronteira têm, repetidamente, provocado vizinhos como o
Líbano e Síria a iniciar ataques, e então o revide de Israel acontece. A máquina
da propaganda de guerra, no entanto, mostra para o mundo um Israel “ético”,
“pacífico” e “defensivo”, e a imprensa apenas reproduz essa propaganda acriticamente.
Ninguém se coloca a pensar sobre não conhecermos anunciantes palestinos, mas
empresas israelenses nós as temos por toda parte, pelo que o leitor pode
inferir o aspecto econômico da guerra na mídia, sempre lucrativo para uns,
enquanto outros são massacrados, sufocados com armas proibidas por tratados
internacionais (Israel usou fósforo branco contra a população encurralada de
Gaza) e a população palestina, em Gaza e na Cisjordânia, é atacada pelas Forças
israelenses em incursões noturnas que não são noticiadas em nenhum lugar.
Mas a História
é longânima, não se deixa enganar, e essa guerra tem um diferencial: redes
sociais acessadas pela população mais jovem, como o Instagram e o Tik
Tok. Além dessas redes, destacam-se o X, o Facebook e o Reddit
como as principais fontes de notícias no meio digital. Quase um terço dos
americanos está se informando sobre o que acontece no mundo pelo TikTok. Quase
o dobro (58%) dos americanos prefere se informar pelos canais digitais do que
pela mídia tradicional (27%). A população jovem não está “comprando” o pacote
fechado da imprensa tradicional; ela está assistindo aos vídeos produzidos in
loco, por jornalistas independentes, pela própria população, por agentes
humanitários que servem voluntariamente em Gaza nos hospitais. E essa geração
está formando uma péssima imagem dos judeus.
Os judeus
formaram uma patrulha contra os críticos, o chamado lobby judaico da
Liga Antidifamação que atua a partir dos Estados Unidos, de entidades como Stand
With Us, Canary Mission, Coalização
Israel no Campus, AIPAC
e afins. Há anos eles combatem toda e qualquer crítica ao Governo de Israel e
às ações contrárias ao direito e aos tratados internacionais, sob o falso
pretexto de “combate ao antissemitismo”.
Provavelmente,
esses grupos não encontrarão eco favorável entre a presente geração que assiste
o impensável ataque assimétrico feito por Israel (que tem sido chamado de IsraHell), sob pretexto de
caça aos líderes do Hamas. Nunca foi contra o Hamas, como veremos no próximo
artigo desta série. A Confederação Israelita do Brasil (Conib) divulgou em
novembro de 2023 que o antissemitismo cresceu 1000% no Brasil. Ninguém
duvidaria que esse crescimento está intimamente relacionado à postura de Israel
na Guerra.
Diferente
do profeta, o trabalho do historiador não é predizer a partir de uma revelação
sobrenatural. O historiador olha conjunturas, acontecimentos e fatos e procura
identificar algum padrão que possa se repetir, sem asseverar que as coisas serão
exatamente como no passado. Neste artigo, apontei breves cenários nada
animadores de que a história nem sempre ensina boas lições a determinadas
populações – o que essa geração de políticos e militantes israelenses aprendeu
com os sobreviventes da shoah (o Holocausto)? A questão agora é saber
como a mesma História irá tratar os atuais protagonistas e seus apoiadores que
não aprenderam com a experiência de seu povo.
No
próximo artigo, abordaremos a narrativa escancaradamente falaciosa de que
Israel está combatendo o Hamas ao bombardear, assassinar a população e invadir
Gaza.
Magno
Paganelli é pós-Doutor e Doutor pela USP, Mestre em Ciências da
Religião
(Mackenzie), professor e escritor. Pesquisa o
conflito Israel-Palestina e o Hamas há onze anos. Instagram e Youtube
@magnopaganelli

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